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segunda-feira, abril 28, 2014

Junho e a mídia corporativa

As manifestações de junho arranharam a hegemonia burguesa no Brasil. Não cindiram essa hegemonia, ou mesmo existiu uma crise dela, mas as manifestações modificaram alguns consensos existentes, colocando um novo “senso comum” na arena da luta de classes. Dentre eles, podemos destacar: 1) O brasileiro também luta, não é um povo apático e passivo que aceita qualquer coisa de seus governantes; 2) Mobilização social é algo legítimo, fazer manifestações é algo justo; 3) É possível vencer, pois abaixamos a tarifa e demonstramos que a luta pode mudar os rumos da história.
 Outros “senso-comuns”, ou críticas ao senso comum se colocaram, mas não se tornaram, ainda, parte de um consenso estabelecido que deva ser abarcado pelos dominantes: 1)A imprensa não é neutra, ela tem lado e em geral se posiciona contra os interesses da população; 2)A polícia militar deve ser superada, por ser uma instituição que atua de forma repressiva contra os interesses da maioria. Os consensos ainda seriam 1) A imprensa é neutra e defende de forma isenta o melhor para todos; 2) A política militar, apesar dos problemas, é necessária.
Os primeiros três pontos elencados são novos consensos estabelecidos. Os dois seguintes são críticas ao consenso estabelecido, mas que ainda não se tornaram um novo senso comum. Sobre esses pontos, o senso comum atual ainda abarca e mantém o consenso anterior às manifestações.
A criação de novos consensos, especialmente os que fortalecem a auto-organização “dos de baixo” é um dos marcos fundamentais da disputa de hegemonia, como também do papel de direção dos dominantes. Para as classes dominantes, não basta exercer o controle e a coerção, é necessário dirigir intelectual e politicamente os dominados, o que só é possível a partir de certos consensos estabelecidos a seu favor. Para manter o domínio, é necessário direcionar os novos consensos a seu favor, mesmo que são contrários aos seus interesses, colocando-os de forma subordinada ao seu programa estratégico, de classe.
O que está ocorrendo neste momento é uma tentativa, por parte de partidos e aparelhos privados de hegemonia das classes dominantes, especialmente a mídia corporativa, de modificar os novo consensos estabelecidos após junho, e “limpar” o possível dano aos consensos que foram atingidos. Ou seja, reestabelecer os marcos da hegemonia burguesa anterior às manifestações. Entretanto, a luta de classe não é linear: só é possível construir novos consensos avançando, criando uma nova correlação de forças, e caso os novos consensos estabelecidos fossem derrotados, a direção intelectual e moral dos dominantes seria reestabelecida num novo patamar, que ampliaria sua capacidade de coerção.
A movimentação dos dominantes ocorreu devido a certa “quebra” ou “descuido” de parte dos dominados (que pode ocorrer a partir de um ato fortuito), que desorganizou as “tropas” de seus inimigos. Com a tropa inimiga (dominados) desorganizada, apareceu uma nova chance para que se utilizasse de forma eficaz toda a “artilharia”, a qual abriria espaço para se tomar sua trincheira. A artilharia não tem pode atuar eternamente, assim sua utilização, para ser mais eficaz, deve ser pautada por momentos oportunos, mesmo que seja necessário a criação dessa oportunidade através dos movimentos mais gerais. Destruindo e tomando as novas trincheiras inimigas, seria possível “cercar” suas casamatas e fortalezas. Neste caso, as trincheiras inimigas são os novos consensos estabelecidos e às críticas que avançaram; as casamatas são as mobilizações (auto-organização da classe) e o PSOL. Ao utilizar a artilharia, as casamatas são atingidas, mesmo que não destruídas. Uma artilharia extremamente forte poderia destruir uma casamata, mas isto não é provável, já que se assim fosse, a casamata sequer existiria, na medida em que a artilharia poderia ter sido usada anteriormente para destruí-la antes mesmo da sua construção.
É difícil atuar sob fogo inimigo, especialmente quando a tropa está desunida por algum motivo. Encontramo-nos neste momento. Entretanto, apenas tentar unir a tropa e esperar o tiro inimigo não basta, é necessário demonstrar que também temos nossa artilharia, e que nossas trincheiras estão fortes, e nossas casamatas foram pouco atingidas.
Logo, precisamos além defender nossas casamatas (as grandes manifestações e o PSOL, e dentre desses seus mandatos e militantes que foram atingidos), também atirar no inimigo, reagir, para que ele não fique tão tranquilo e organizado para atirar ainda mais. É necessário demonstrar a contradição de diversos discursos que são as balas da artilharia, como “quem financia quem”, “quem manipula quem”, “a quem serve a mídia corporativa”, “qual é o papel da polícia nas manifestações”, dentre outros. Atacar a ideia e quem difunde a ideia (O GLOBO, VEJA, O DIA, etc). Defender-se é a prioridade, mas não é possível uma defesa numa guerra sem balas que atinjam o inimigo.

Não é possível definir ao certo o que sairá deste confronto, pois ainda estamos no meio dele. Mas já é possível definir que a arena foi modificada, e que devido à nova movimentação das tropas e das artilharias, os novos consensos necessários terão um novo paradigma, mais polarizado. A crença na “estabilidade da ordem”, própria da visão reformista, perderá espaço, tendo em vista que a própria luta de classes será cada vez mais dinâmica, pois o lado de lá não pode apenar manter sua tropa e utilizar novas trincheiras e casamatas (como o PT), já que novas casamatas foram construídas do lado de cá. É um momento de polarização, e a partir dele, aproximar-se do PSOL, mesmo que através do voto, será cada vez mais visto como uma tomada de posição, de aproximação de certa casamata, que foi atacada pelo inimigo e, por isso, está mais a vista para todos. 

Sobre bandeiras e partidos nos movimentos de massa

Os movimentos de massa tem uma dinâmica própria, de difícil compreensão em curto espaço de tempo. Um dos nossos guias para entendermos esses movimentos são os aprendizados históricos, sejam de nosso país, sejam de outras experiências em curso.
A traição do PT despolitizou a política. Ao contrário da ditadura militar, onde os partidos eram forjados “por cima” (MDBxARENA), e que o movimento contra a ditadura tomava corpo na construção de novos partidos, hoje estamos numa “democracia burguesa” (uma “democracia de araque”, “falsa democracia” ou qualquer outro termo também é bem-vindo). Assim, a luta do PT pelas diretas já ocorreu em conjunto com a sociedade civil, que abraçou, em grande medida, a causa de “um partido sem patrões”. Hoje estamos noutra conjuntura.
Esta nova conjuntura de traição de classe do PT não fez apenas com que a esquerda perdesse espaço: a própria política perdeu espaço, e com ela, um questionamento amplo no senso-comum sobre a necessidade ou não de partidos. Existe um senso comum contra os partidos, e é nesta realidade que estamos imersos:
“A espontaneidade é característica da história das classes que ocupam um lugar subalterno na sociedade e, como tal, é condicionada pela ideologia da classe dominante. Logo, a ação espontânea das massas resulta da mistura desordenada, desarticulada de elementos ideológicos da classe dominante com concepções oriundas das próprias da própria vida das massas, a nível de bom senso. É, portanto, uma ação fundada no senso comum enquanto concepção de mundo fragmentária, dispersa e incoerente, difundida no interior das classes subalternas”

Estes elementos difusos que se relacionam ( como nacionalismo/bandeira do Brasil, rejeição aos governos, rejeição a repressão, “não a depredação”, “não aos partidos políticos”) são o caldo ideológico de manifestações espontâneas de massa, e que refletem o atual nível da consciência das classes subalternas. É neste terreno que estamos nos movimentando.


Levando isto em consideração, é importante uma ressalva: grandes mobilizações foram feitas sem a presença de bandeiras partidárias, o que não necessariamente demonstra  que elas “não nos servem”. Revoluções foram feitas sem a presença de bandeiras de partidos. Ou seja, temos que perceber este senso-comum, e atuar nele de forma coordenada, para daí extrair um “bom senso”:

“O núcleo do bom senso, no interior dessa concepção de mundo dispersa do senso comum, expressa o mínimo de reflexão própria das massas nos seus movimentos espontâneos, configurando um esboço de pensamento particular, próprio que precisa ser articulado, unificado, através do elemento de direção”

Precisamos trabalhar, de forma pedagógica, de que o pertencimento ou não a partidos é uma escolha pessoal (inclusive é um direito). Mas distribuir centenas de bandeiras partidárias numa manifestação deste tipo, de forma coordenada, “agride” este senso comum, que se revolta, e dele “cospe” seus fatores mais reacionários, através da queima das bandeiras, agressões. Para este senso-comum, seu direito “individual” de não escolher partidos está sendo cerceado, pois em seu mundo imaginário, não deveriam existir partidos.

O processo de politização é longo. A maioria dos membros das passeatas atuais não é anticapitalista, muito menos tem simpatia por este ou aquele partido socialista.  Com o tempo, quando estas revoltas acabarem, estaremos num outro processo de luta, e aos poucos, com maior politização. Mas até lá temos que dialogar para construção deste bom senso.

E muitos anticapitalistas usaram bandeiras da Turquia, uma pátria com um nacionalismo bem complexo, que até hoje detém símbolos islâmicos como marco. Ou bandeiras do Egito, Tunísia, Síria...

Obviamente, preferíamos de uma bandeira nacional que estive escrito “Justiça Social” ao invés de “Ordem e Progresso”. Este é um segundo momento de debate, de diálogo com este senso comum.

Ou seja, não precisamos deflagrar dezenas de bandeiras dos nossos partidos nas passeatas. Nossa bandeira é a luta anticapitalista, e não existe nada mais anticapitalista que mobilizações de massa. Os participantes mais conscientes aos poucos perceberão que para ocorrer uma transformação profunda na sociedade é necessário um programa, e uma organização que lute pela sua efetivação, e poderão (ou não) se aproximar de algum partido. Até lá dialogaremos, e questionaremos todos e todas que queimem as bandeiras dos outros, como um ato extremamente antidemocrático. Mas nosso papel, como socialistas, é entender a conjuntura e atuar nela para que mude. A realidade é o nosso guia para a ação. E nossas bandeiras, e lemas, estarão em nossos corações, pulsando vermelhos como sempre.








sábado, outubro 05, 2013

De americanismo e fordismo

"O homem-industrial continua a trabalhar, mesmo se milionário, mas sua mulher e suas filhas tornam-se cada vez mais "mamíferos de luxo". Os concursos de beleza, os concursos para escolher atores cinematográficos (lembrar as 30.000 jovens italias que, em 1926, enviaram fotos em traje de banho para a Fox), o teatro, etc, selecionando a beleza feminina mundial e colocando-a em leilão, geram uma mentalidade de prostituição; e o "tráfico de mulheres" é feito legalmente para as classes altas. (...) a prostituição real prolifera, mal disfarçada por frágeis formalidades jurídicas". Antonio Gramsci

terça-feira, agosto 06, 2013

Ser professor

Ser professor dá trabalho, cansa, ganhamos menos do que deveríamos. Mas lutamos, e somos recompensados a cada gesto de carinho, de reencontro com os estudantes que se formaram, de lembranças e aprendizados. 

Eu aprendi muito mais do que ensinei na escola. Os estudantes demonstraram sempre que nos momentos mais importantes, são exemplos de seres humanos. Acredito nos estudantes, sejam eles jovens, ou adultos, que também tive o prazer de dividir uma sala escolar na educação de Jovens.

Já trabalhei no Ensino Superior, fundamental, médio e EJA. 

O que me dá mais alegria e onde me vejo com maior função social é no ensino fundamental. É ali que grande parte da nossa concepção de mundo está sendo formada, e como educadores temos importante contribuição. Os estudantes que mais me ensinaram como ser professor foram os do ensino fundamental. 

Só quando valorizarmos a educação básica para além dos formalismos acadêmicos é que poderemos ter a certeza de que a educação como um todo, formal e não-formal, será a base do novo mundo que queremos construir. Ser revolucionário é estar onde o nosso povo está, sempre!



O novo governo do PT em Niterói: Quais são os desafios dos socialistas frente a um governo de conciliação de classes?

 Rodrigo Neves, dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT) de Niterói, foi eleito prefeito da cidade para os próximos 4 anos, tendo 34,55% dos votos dos eleitores (132.001). Felipe Peixoto (PDT) teve 31,20% dos votos (119.205). Abstenções, brancos e nulos somaram 34,24% (130.815).  Estes números demonstram uma rejeição à participação política em geral, ou aos candidatos que disputavam o pleito? Provavelmente, as duas coisas.

Jorge Roberto Silveira (PDT) foi eleito com 168.465 votos em 2008. Em pesquisa do IBPS, em fevereiro de 2012, seu governo aparecia com 72% de rejeição. Somando os votos do PT, e aqueles que de alguma maneira rejeitaram o processo eleitoral (31,20% + 34,24) chegamos a 65,44% da população, número próximo ao da rejeição de Jorge, o que nos indica que grandiosa parte do eleitorado que ainda tinha alguma esperança no ciclo Jorge Roberto/PDT votou em Felipe. Nem todos aqueles que votaram em Felipe Peixoto (PDT) aprovavam o Governo Jorge Roberto e seu ciclo histórico, mas aparentemente a ampla maioria dos seus votos veio desse segmento da sociedade.

 Antiga capital do estado, antes da fusão do Rio de Janeiro com a Guanabara, Niterói tem a quarta maior economia fluminense, com Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 10,8 bilhões.

Como diz a nota do PSOL-Niterói “Felipe Peixoto e Rodrigo Neves começaram suas trajetórias ligados a Jorge Roberto Silveira, foram inclusive seus secretários. Votaram a favor de questões que a nosso ver contrariavam os interesses públicos da cidade, como os atuais parâmetros urbanísticos da Orla da Baía, que permitiram a multiplicação dos espigões na cidade, aprovados em 2002, a portas fechadas na Câmara de Vereadores. Felipe votou a favor do inchaço da máquina pública, inclusive do conselho consultivo. Rodrigo votou a favor da cobrança de pedágio no Túnel Charitas – Cafubá. PT e PDT têm em Niterói ou no Brasil estimulado e implementado a privatização e o sucateamento dos serviços públicos com terceirizações e organizações sociais. Recentemente, Felipe e Rodrigo foram secretários de Sérgio Cabral e nunca disseram nada contra a precarização do serviço público, o desrespeito aos profissionais, dentre eles os professores e bombeiros. Também calaram ante os desrespeitos à população de Niterói, como no caso do aumento abusivo da tarifa das Barcas ou do sucateamento da segurança pública da cidade, com o abandono dos GPAES justo no momento de implantação das UPPs na cidade do Rio. Ambos apresentam-se como novidades cercados da velha política da cidade que, ao apagar das luzes, buscaram aprovar na Câmara de Vereadores um aumento de mais de 60% em seus próprios salários, do prefeito e dos secretários. Isso no momento em que se fala em cortar cargos comissionados.”

Dessa maneira, Felipe Peixoto e Rodrigo Neves, apesar de aparentemente expressarem vínculos diretos diferentes do ponto de vista das frações das classes dominantes, de forma mediada aplicam um projeto que unifica localmente a exploração por parte daqueles. A eleição no segundo turno foi apenas para definir quais seriam os condutores de um mesmo projeto político. Só existiria uma polarização de projetos caso o PSOL, na figura de Flavio Serafini, tivesse chegado ao segundo turno.

O PSOL de Niterói, fundado em agosto de 2005, tem uma trajetória vinculada às pautas dos explorados da cidade. Em sete anos de construção política pela base, dialogando com aqueles que organizam a luta dos trabalhadores e oprimidos, é uma expressão viva de que um programa e suas ideias, quando se tornam movimento, transformam-se em força material real. Do ponto de vista eleitoral, desde o apoio a candidatura do atual vereador Renatinho ainda pelo PT, trazendo-o para a construção do novo partido. Destaca-se, ainda, a eleição do então desconhecido niteroiense Marcelo Freixo como Deputado Estadual em 2006, com apenas 13 mil votos (eleição na qual Paulo Eduardo Gomes, também de Niterói, tornou-se o primeiro suplente). Em 2008, o PSOL elegeu com o segundo vereador mais votado da cidade (Renatinho), fez uma campanha contra uma máquina eleitoral fortíssima (Jorge Roberto se elegeu no primeiro turno), e Paulo Eduardo se estabelece com 8% dos votos, ficando a frente do PSDB de Gegê Galindo. A aliança desta eleição era PSOL-PCB-PSTU.

Se o aumento das desigualdades sociais na cidade foi a tônica da década de 2000-2010, o fato é que Niterói tem um histórico de governos que se propõe na aparência a realizar projetos para a maioria da população, e na prática constroem a hegemonia das classes dominantes. Talvez a cidade tenha “adiantado” o processo de hegemonia do social-liberalismo sem ter passado por um governo neoliberal clássico. O PDT de Jorge Roberto tem no seu histórico a construção dessa “revolução-restauração” no  pós-ditadura militar: ampliação de serviços públicos (com destaque para o pioneirismo do médico de família), urbanização de favelas e construção de equipamentos públicos, dentre outros, com a autonomia financeira possibilitada pela Constituição de 1988 para os municípios. Entretanto, do ponto de vista das classes dominantes, existiu uma grande estabilidade que possibilitou a reorganização espacial da cidade em seu espelho, com bolsões de pobreza e grandes prédios dividindo territórios. Niterói tem um histórico de resistência, desde a fundação do PCB em 1922, a revolta da Cantareira sobre as Barcas em 1959 (ano da revolução cubana), dentre outros marcos fundamentais, sendo um espaço de resistência e disputa durante a ditadura civil-militar de 1964.

Os condutores deste projeto social-liberal de conciliação de classes pelos dominantes, tendo a frente a figura “cesarista” de Jorge Roberto Silveira, estiveram no governo desde 1989 até 2002 (aqui já com o apoio da maioria PT, e sua participação na prefeitura). O “interregno” do Godofredo Pinto manteve grande parte da direção das classes dominantes no interior da sociedade política, o que se demonstra pelos amplos acordos construídos no secretariado e na Câmara Municipal. Apesar de algumas divergências, o projeto PDT-PT era o mesmo, o social-liberalismo.

Avaliamos como marco de uma nova conjuntura a reação social a tragédia de abril de 2010. Uma tragédia de grandes proporções como aquela pode inclusive catapultar um projeto conservador de remoções se servir como base a um consenso conservador. Mas, em conjunto com a luta histórica da cidade, seus movimentos sociais, parte ativa daqueles que constroem o PSOL articularam uma ampla rede de solidariedade e mobilização social. Um grande desgaste e quebra de consenso em torno não apenas de Jorge Roberto Silveira, mas do projeto social-liberal em curso, estava colocado. Naquele momento Flavio Serafini já se destacava como referência dos trabalhadores moradores de favelas na construção do comitê de desabrigados.

Não foi a tragédia de 2010, ou uma desgaste “esperado” depois de décadas no Governo que enfraqueceram Jorge Roberto: foram estes fatores, em conjunto com outros, conjugados com uma organização genuinamente autônoma dos explorados, que fez avançar sua mobilização e consciência de classe. É a luta de classes que determina a construção ou não de consensos, possibilitando a hegemonia deste ou daquele projeto.

A eleição de 2012 pode ser considerada um novo marco na reverberação de outro projeto para a cidade, baseado num programa em defesa da necessária refundação democrática da cidade. O estrondoso fortalecimento do PSOL, com Flavio Serafini tendo 18,5% dos votos, e com a eleição de 3 vereadores (os 2 primeiros deles os mais votados, e elegendo um novato com muito expressiva votação, Henrique Vieira) é um momento que congrega aquilo que se construiu no passado, e possibilita avanços do ponto de vista dos subalternizados.

Ao enfrentar o governo Rodrigo Neves, o PSOL poderá construir um novo consenso de que é possível superar o projeto social-liberal através da mobilização dos explorados. Com a presidência de 3 comissões, que podem realizar audiências públicas, inclusive em conjunto, como também através do diálogo permanente com a sociedade civil-popular, este é um novo desafio. Os socialistas terão 3 vereadores de um total de 21.

Portanto, nosso desafio não será apenas resistir aos ataques das classes dominantes que certamente virão, em muitos momentos pautados, do ponto de vista organizado, pela sociedade política dirigida por Rodrigo Neves-PT. A escolha do secretariado, especialmente no que tange a política de Segurança Pública é sintoma de um governo que pode tender a um social-conservadorismo em momentos de crise.

Está colocada para os socialistas de diferentes matizes de Niterói a responsabilidade de construir amplamente, calcado na mobilização e formulação, de uma frente com todos aqueles que se propõe a construir o novo e que tenha como objetivo a refundação democrática da cidade pelos oprimidos e explorados. A disputa no interior da sociedade civil de um novo consenso, que possibilite a construção de uma contra-hegemonia permanente está aberta. Dar dois passos a frente não é só possível, como necessário.

segunda-feira, agosto 05, 2013



Nossa geração já tem o seu próprio AI-5

Em 19 de julho de 2013, o assim chamado Governador Sergio Cabral Filho, por meio de decreto, instituiu a criação da “Comissão Especial de investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações públicas”, batizada de CEIV. Em seus “considerandos”, constam: 

“- os recentes e reiterados acontecimentos envolvendo atos de vandalismo perpetrados por grupos organizados, causadores de danos à incolumidade física de pessoas e destruição do patrimônio público e privado; e
- a necessidade de as instituições públicas incumbidas da defesa do Estado Democrático de Direito se organizarem para promover uma maior eficiência na investigação e na tomada de providência para a prevenção da ocorrência de novos atos de vandalismo e punição das práticas criminais já perpetradas.”

Em 13 de dezembro de 1968, o assim chamado Presidente da República, Costa e Silva, promulgou, por meio de decreto, o Ato institucional No 5.
Em seus “considerandos”, constam:

“- CONSIDERANDO que a Revolução Brasileira de 31 de março de 1964 teve, conforme decorre dos Atos com os quais se institucionalizou, fundamentos e propósitos que visavam a dar ao País um regime que, atendendo às exigências de um sistema jurídico e político, assegurasse autêntica ordem democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade da pessoa humana, no combate à subversão e às ideologias contrárias às tradições de nosso povo, na luta contra a corrupção, buscando, deste modo, “os. meios indispensáveis à obra de reconstrução econômica, financeira, política e moral do Brasil, de maneira a poder enfrentar, de modo direito e imediato, os graves e urgentes problemas de que depende a restauração da ordem interna e do prestígio internacional da nossa pátria" (Preâmbulo do Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964);

-CONSIDERANDO que o Governo da República, responsável pela execução daqueles objetivos e pela ordem e segurança internas, não só não pode permitir que pessoas ou grupos anti-revolucionários contra ela trabalhem, tramem ou ajam, sob pena de estar faltando a compromissos que assumiu com o povo brasileiro, bem como porque o Poder Revolucionário, ao editar o Ato Institucional nº 2, afirmou, categoricamente, que “não se disse que a Revolução foi, mas que é e continuará" e, portanto, o processo revolucionário em desenvolvimento não pode ser detido;

- CONSIDERANDO, no entanto, que atos nitidamente subversivos, oriundos dos mais distintos setores políticos e culturais, comprovam que os instrumentos jurídicos, que a Revolução vitoriosa outorgou à Nação para sua defesa, desenvolvimento e bem-estar de seu povo, estão servindo de meios para combatê-la e destruí-la;

- CONSIDERANDO que, assim, se torna imperiosa a adoção de medidas que impeçam sejam frustrados os ideais superiores da Revolução, preservando a ordem, a segurança, a tranqüilidade, o desenvolvimento econômico e cultural e a harmonia política e social do País comprometidos por processos subversivos e de guerra revolucionária;”

Comparando o texto dos dois decretos, um elemento característico une os dois: elencar a existência de um inimigo público, que deve ser combatido pelo Estado para defender a “ordem”. No decreto de Sergio Cabral, os que “praticam atos de vandalismo”; no de Costa e Silva, os “subversivos”. 

Nos dois, o objetivo também é parecido: criar mecanismos que possibilitem a perseguição e destruição dos “inimigos públicos”, mesmo que para isto seja necessário a perda do direitos civis e políticos.

No Artigo 3º do Decreto, Governador do Rio determina que “as empresas Operadoras de Telefonia e Provedores de Internet terão prazo máximo de 24 horas para atendimento dos pedidos de informações da CEIV.”, isto é, que a CEIV tem o poder de requisitar informações privadas, passando por cima de qualquer rito processual, assim como realizava a política política (DOPS) na Ditadura Militar. No AI-5, o objetivo central era a suspensão de direitos políticos por parte da Presidência, e das consequências deste fim, como: 

“Art. 5º - A suspensão dos direitos políticos, com base neste Ato, importa, simultaneamente, em:
I - cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função;
II - suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais;
III - proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política;
IV - aplicação, quando necessária, das seguintes medidas de segurança:”

Com seu Decreto, Sergio Cabral quer reeditar o inciso III (proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política) através da criminalização de certos manifestantes, alçados a categoria de “inimigos públicos”. Nossa geração já tem o seu próprio AI-5.

No dia 26 de junho de 1968 ocorreu uma concentração popular no bairro central do Rio de Janeiro, a Cinelândia, após a prisão de mais de 300 estudantes em diversas manifestações no Brasil. Às 14 horas, cerca de 50 mil pessoas se encontravam no local. No decorrer da passeata, já havia quase 100.000 pessoas, suscitando em um dos mais importantes eventos contra a repressão ditatorial do Regime Militar, a Passeata dos 100 mil. E em dezembro de 1968 vem o AI-5.

Em junho de 2013 temos as manifestações dos 20 centavos,que levam mais de 1 milhão para as ruas. E em julho do mesmo ano, vem o Decreto da CEIV.

Temos que reagir a escalada da repressão em nosso país.

segunda-feira, julho 23, 2012

Beauvoir e os mitos

"A parte III de "O segundo sexo" (Simone Beauvoir) é intitulada "Mitos" e é dedicada a exploração das fantasias que os homens nutrem sobre as mulheres - fantasias que justificam sua subordinação. Ali são descritas as batalhas travadas pelo homens para realizar - conjuntamente, por meio das mulheres e contra as mulheres-, as fantasias que eles permanentemente criam sobre as mulheres como natureza, carne e poesia. A mulher constitui-se ali em um outro, um escravo, uma companheira dos desejos caprichosos dos homens em busca de sua autorrealização egoísta, ídolo de culto, uma simples distração ou recompensa pelas ansiedades provocadas pelo envolvimento deles em uma competição (nobre ou cruel) com os demais homens. As mulheres prestam-se a diversas funções aos homens em suas projeções de si mesmos, em suas limitações e esperanças. " Pag 141, Burawoy. Omarxismo encontra Bordieu